10# CULTURA 29.1.14

     10#1 UM MODERNISTA NO RIO
     10#2 EXPOSIO - ACERVO COMPARTILHADO
     10#3 CINEMA - PELOS OLHOS DA CRIANA
     10#4 EM CARTAZ  LIVROS - RETUMBANTE COMO AS PEAS DO BARDO
     10#5 EM CARTAZ  TEATRO - O INFERNO DE SALIERI
     10#6 EM CARTAZ  DVD - RADIOGRAFIA DA VIOLNCIA
     10#7 EM CARTAZ  CINEMA - PUNK DE SHOPPING
     10#8 EM CARTAZ  MSICA - ABRAAO DE DESPEDIDA
     10#9 EM CARTAZ  AGENDA - CINEMA FRANCS/ANTONIO MANUEL/IRMOS DE SANGUE

10#1 UM MODERNISTA NO RIO
Lanados pela primeira vez em livro, textos do paulistano Mrio de Andrade escritos na Cidade Maravilhosa mostram as razes da rivalidade entre as duas capitais
 Ana Weiss

No  um consenso, mas a maioria dos historiadores afirma que So Paulo se tornou a capital cultural do Brasil nos anos 1930. No af de reaver o poderio econmico dos tempos do caf, as foras polticas se cercaram de intelectuais oriundos do modernismo e instituies como a Universidade de So Paulo e o Departamento Municipal de Cultura (futura Secretaria Municipal de Cultura) se estabeleceram como modelos para o resto todo do Pas. Apesar de frtil, o crescimento durou pouco. Com o golpe de 1937 e o estabelecimento do Estado Novo, o sopro progressista se dispersou e, no mesmo movimento, a ao de atuantes personalidades culturais. O escritor Mrio de Andrade (1893-1945), por exemplo, suspendeu sua importante pesquisa de msica popular e se mudou para ao Rio de Janeiro, onde, afastado das funes polticas, se dedicou  crtica.

Uma fatia importante dessa produo, organizada pela pesquisadora Francini Venncio de Oliveira, chega a pblico agora pelo livro Sejamos Todos Musicais, da Alameda Editorial. Primeira reunio impressa das colunas publicadas originalmente na Revista do Brasil entre 1938 e 1940, a obra traz um Mrio de Andrade decepcionado, descontente e profundamente mal-humorado em relao ao novo endereo. Chega a ser engraado o modo como ele se refere s diferenas de costumes entre as duas capitais, diz a filsofa, que realizou o levantamento no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). Tanto  que, embora a natureza da coluna fosse de crtica musical, no era raro que ele usasse um espetculo como pretexto para demonstrar seu estranhamento em relao ao Rio de Janeiro.
 
Quando uma rplica do Pavilho Monroe, da Exposio Universal de Saint Louis, foi erguida na avenida Rio Branco, sua coluna da edio comeava assim: Entra um chins num pavilho muito feio e enfeitado, mas bem enfeitado mesmo, est claro que se intitula Pavilho do Brasil. Essa  pelo menos uma tradio, bem exemplificada pela compoteira que, para maior exemplo dos brasileiros, ali foi recomposta no incio da avenida Rio Branco, na sublime cidade do Rio de Janeiro.

Afastado da vida pblica de So Paulo, o escritor modernista Mrio de Andrade passou dois anos no Rio de Janeiro, onde publicou crticas que iam alm do circuito musical
 
Em um outro texto, ironicamente intitulado Por Certo que Hoje Meu Assunto no Ser Beethoven ou Berlioz, escreveu: O fato ocorreu naturalmente com um amigo bastante ntimo. Na crnica, Mrio de Andrade se refere a um carioca chamado Murilo, que a pesquisadora desconfia se tratar do escritor mineiro Murilo Mendes, que vivia no Rio na poca. Convidou-me ele para tomarmos um caf, sentamos, e eis que o meu amigo ntimo, gentilmente, com toda a aparncia de cortesia, pe-se a derramar acar e demais acares na minha xcara. (...) Eu ento fico inquietssimo, porque, se a quantidade no for justa, o caf se estraga completamente. Inda mais se tratando desse caf que se bebe no Rio, duro, durssimo.
 
O descontentamento do modernista ia alm do caf diferente. Para o intelectual, era inconcebvel a maneira colonizada com que a prefeitura da ento capital federal gerenciava suas casas de espetculo, priorizando solistas internacionais  formao de grupos como corais. Em So Paulo, Mrio de Andrade havia criado os Corais Lrico (que este ano passa a se chamar Coral Mrio de Andrade) e Paulistano. Ambos ainda hoje compem o quadro do Teatro Municipal de So Paulo. A orientao da msica pblica que se faz no Rio, e a sua qualidade,  incomparavelmente inferior  de So Paulo. Aqui no Rio, ns estamos ainda no regime do solista. Se o Rio de Janeiro  uma pera, So Paulo  uma sinfonia.

A criao dos departamentos culturais na capital paulista tinha feito Mrio de Andrade acreditar na concretizao dos preceitos da primeira fase do modernismo, como a ampla difuso da cultura popular, da qual ele fora um dos nossos primeiros e principais defensores. O tom crtico em relao ao entorno tambm mostra que, com o baque do Estado Novo, Mrio de Andrade abraou para sempre o olhar poltico e social em relao  produo artstica, diz a pesquisadora. Ou seja, o mal-estar explcito e implcito na maioria desses textos do perodo de dois anos no Rio se inscreve na biografia do autor como um ponto de mudana: era o impacto do naufrgio de uma fase poltica atuante, mas o incio de uma produo intelectual mais engajada, que marcaria a atividade de Mrio de Andrade at o final da vida.  


10#2 EXPOSIO - ACERVO COMPARTILHADO
A chegada da Coleo Ludwig a So Paulo mostra como colecionadores esto abrindo seus acervos ao pblico por meio de emprstimos e exposies itinerantes. Trata-se de um momento importante na difuso da arte
Ivan Claudio e Ana Weiss

Colecionadores de arte sempre foram associados  imagem do bilionrio vaidoso e excntrico que gasta tubos para ter em sua casa  e apenas para o deleite de amigos  obras de artistas estrelados. Esse esteretipo, contudo, est sendo enterrado com a exibio de acervos antes invisveis, seja em museus especialmente construdos para abrig-los, seja por meio da itinerncia dessas colees pelo mundo. Para o Brasil, a segunda opo  atraente e comea a se tornar uma prtica comum, como prova a chegada de mais uma exposio internacional, Vises na Coleo Ludwig, em cartaz no CCBB, em So Paulo, at 21/4. So 78 obras de primeira grandeza de nomes como Pablo Picasso, Andy Warhol, Roy Lichtenstein e Anselm Kiefer, entre outros, abrangendo o melhor da arte moderna e contempornea. Uma parcela pequena, mas expressiva, da coleo de 20 mil peas, acumulada desde os anos 1950 pelo empresrio alemo Peter Ludwig e sua mulher, Irene  o recorte vem do Museu Russo de So Petersburgo, uma das 12 entidades presenteadas com uma parte desse acervo. Outros pases que possuem um Museu Ludwig so Hungria, ustria, Sua, Cuba e China. Desde o incio, Ludwig quis internacionalizar a sua coleo, diz Ania Rodrguez, da empresa carioca ArteA, que assina a curadoria com Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky, do Museu Russo.

DIRETO DA RSSIA
 "Cabeas Grandes" de Pablo Picasso
"Retrato de Peter Ludwig", de Andy Warhol
Tela sem ttulo, de Jean-Michel Basquiat
"Madona", de Claudio Bravo: destaques da coleo em emprstimo permanente no Museu Russo de So Petersburgo, atualmente em cartaz no CCBB de So Paulo
 
Com sede em Aachen, no oeste da Alemanha, o Museu Ludwig possui a maior coleo de pop art fora dos EUA. Ele adquiriu obras importantes desses artistas muito antes de ficarem conhecidos, diz Ania, mostrando como o empresrio sempre teve um bom olho.  justamente com obras de Warhol (que assina um retrato do colecionador), Roy Lichtenstein e Robert Rauschenberg que a exposio recebe o visitante. Outro segmento forte  o neoexpressionismo alemo, com telas de Georg Bazelitz, Markus Lpertz e A.R. Penck, tambm adquiridas no incio de suas carreiras. Dono do terceiro maior acervo de Picasso no mundo (s perde para Paris e Barcelona), o museu reservou lugar de destaque na mostra para Cabeas Grandes, do pintor espanhol.
 
Criar fundaes para abrigar colees particulares  a iniciativa mais comum na difuso desses valiosos acervos. O empresrio francs Bernard Arnault, por exemplo, contratou o arquiteto Frank Gehry, autor do projeto do Museu Guggenheim Bilbao, para levantar em Paris a Louis Vuitton Foundation for Creation. Tambm francs, Franois Pinault exibe parte de suas duas mil obras no Palazzo Grassi e na Punta della Dogana, em Veneza. Mas mantm um programa de emprstimo de suas aquisies, compondo importantes mostras itinerantes. Uma delas foi Un Certain tat du Monde, com obras de Jeff Koons, Bill Viola, Maurizio Cattelan e Cindy Sherman, entre outros, acontecida no Garage Center for Contemporary Culture, em Moscou. A estratgia mais inovadora, contudo,  a do colecionador americano Eli Broad. Ele criou o que chama de biblioteca de emprstimos e contabiliza mais de oito mil colaboraes com 500 museus. Todos ganham: uma grande parte de sua coleo  mostrada e um maior pblico global pode usufru-la, disse ele.

No Brasil essa mentalidade j se encontra em prtica. Entrar em itinerncia e j est confirmada para a Pinacoteca do Estado, em So Paulo, a mostra Trajetrias  a Arte Brasileira na Fundao Edson Queiroz, atualmente em cartaz em Fortaleza. Outra exposio aberta na capital paulista, no Pao das Artes,  Duplo Olhar, com 110 obras do colecionador brasiliense Srgio Carvalho. Com um acervo de mais de mil trabalhos, ele pretende abrir um museu fora do eixo Rio-So Paulo. A presena de artistas das regies Centro-Oeste, Norte e Nordeste  forte em suas aquisies.  uma coleo muito abrangente, diz Denise Mattar, curadora da mostra.


10#3 CINEMA - PELOS OLHOS DA CRIANA
O filme "A Menina Que Roubava Livros"  mais um ttulo de sucesso do filo que contrape a infncia aos dramas do mundo adulto 
Ivan Claudio

Criana e cinema sempre se deram muito bem  que o diga o cineasta americano Steven Spielberg, em cuja lista de sucessos pontuam ttulos como E.T.  o Extraterrestre e O Imprio do Sol. A explicao mais bvia  que a identificao do espectador com enredos centrados na infncia mostra-se imediata. Na tentativa de maior adeso  histria, o apelo a esse tipo de personagem revela-se mais eficiente quando o fato narrado envolve um drama em si mesmo incompreensvel aos olhos da criana. Nesse caso, o prprio choque entre a inocncia do protagonista e a dura realidade que o rodeia  o que cativa na trama. Tome como exemplo A Menina Que Roubava Livros, em cartaz na sexta-feira 31, baseado em um best-seller j testado segundo a mesma frmula.

EVASO - Por meio da leitura, Liesel (Sophie Nlisse) embeleza a realidade

O filme de Brian Percival, diretor de alguns episdios da fabulosa srie Downtown Abbey, mostra como uma menina adotada por uma famlia contrria  mquina de extermnio nazista consegue manter a cabecinha inteira aps reveses sucessivos. A sua tragdia  e das pessoas  sua volta  poderia ter sido mostrada por meio de adultos. Envolve mais sendo ela uma pr-adolescente.
 
Pode-se, com razo, argumentar que esse recurso  antigo e est na raiz de um certo tipo de melodrama. Mas a sua retomada recente tem nova faceta, pois envolve uma produo literria feita j pensando o cinema  ou que usa de tcnicas prprias da narrativa cinematogrfica. O filo  extenso, mas, para ficar apenas nos exemplos recentes, podem ser lembrados os longas O Menino do Pijama Listrado, sobre a amizade de um garoto de classe mdia alta e um menino judeu, encerrado em um campo de concentrao vizinho  sua casa de campo; O Caador de Pipas, encerrando outra amizade entre crianas de classes sociais diferentes, s que agora no Afeganisto; e, de certa forma, As Aventuras de Pi, narrao de como um menino sobreviveu em um barco em alto-mar. Todos so baseados em best-sellers e tratam de assuntos dramticos pelo vis da camaradagem, com um vai e vem na narrativa. Num belo artigo sobre esse tipo de literatura  e de filme, por consequncia  a escritora americana Dana Sachs, de ascendncia judia, conta como os jovens  seu filho inclusive  no tm pacincia para ler O Dirio de Anne Frank, mas se comovem com a histria de Liesel, protagonista de A Menina Que Roubava Livros. Ela furtava romances na biblioteca do prefeito da cidadezinha onde foi morar, e assim conseguia esquecer o pesadelo que vivia e ainda amenizar a dor de um perseguido do nazismo, escondido no poro de sua casa. Mas no  exatamente isso o que faz o cinema?


10#4 EM CARTAZ  LIVROS - RETUMBANTE COMO AS PEAS DO BARDO
por Ivan Claudio

O novo romance do escritor ingls Martin Amis, que sai pela Companhia das Letras,  igualmente ingls no ttulo (Lionel Asbo  Estado da Inglaterra), nos tipos, na ambientao e na maneira de contar histrias. J na abertura do livro, a carta do jovem Desmond Pepperdine tira o cho do leitor como manda a regra shakespeariana de iniciar os espetculos com uma cena retumbante que garante a ateno do pblico at o final. Passado o susto, fica difcil abandonar a trajetria do encrenqueiro Lionel, anti-heri sem carter e profisso do distrito de Diston Town, que um dia ganha na loteria. A partir de ento tenta se encontrar na vida de milionrio com novos hbitos, como seduzir discretas vovs igualmente milionrias.

+5 livros de Martin Amis
DEAD BABIES 
A segunda obra de Amis  uma pardia das histrias de mistrio de Agatha Christie. Deu origem ao filme homnimo (FOTO)
 
A VIVA GRVIDA
 Tringulo amoroso enlaa um estudante de poesia e duas colegas a uma passagem trgica que modificaria suas vidas
 
TREM NOTURNO
 Um dos poucos ttulos do autor passados nos EUA e protagonizados por uma mulher, trata da investigao de um suicdio mal explicado
 
A INFORMAO
 Amigos escritores vivem uma disputa que testa os princpios e os limites da tica nos relacionamentos
 
CASA DE ENCONTROS
 Ex-combatente revive o perodo de confinamento na Sibria, onde esteve preso por traio poltica


10#5 EM CARTAZ  TEATRO - O INFERNO DE SALIERI
por Ivan Claudio

Em Um Rquiem para Antonio (Tucarena, So Paulo), o dramaturgo Dib Carneiro Neto joga luz sobre o sofrimento do msico italiano Antonio Salieri, depois da morte do rival Wolfgang Amadeus Mozart, cujo talento invejava. Sob a direo de Gabriel Villela, Elias Andreato vive um Salieri imerso em alucinaes, que encontra o compositor da Quinta Sinfonia, interpretado por Claudio Fontana.  


10#6 EM CARTAZ  DVD - RADIOGRAFIA DA VIOLNCIA
por Ivan Claudio

Entre os rebeldes diretores americanos, Sam Peckimpah (1925-1984) fez jus  fama ao realizar um de seus filmes mais polmicos, Sob o Domnio do Medo, que sai em DVD com a cpia restaurada. A histria mostra o conflito que a chegada de um matemtico americano, vivido por Dustin Hoffman, provoca na populao de um vilarejo ingls. Casado com uma mulher nascida na cidade, ele passa a ser ameaado, vendo-se obrigado a usar da mesma violncia dos opressores. Nos extras, a atriz Susan George, que interpreta a mulher do matemtico, fala das exigncias do diretor e das cenas de estupro que causaram problemas com a censura da poca em que o filme foi lanado, nos anos 1970.


10#7 EM CARTAZ  CINEMA - PUNK DE SHOPPING
por Ivan Claudio

Vencedor da mostra paralela do Festival de Cannes,A Grande Noite, em cartaz a partir da sexta-feira 31, tem como protagonista Not (Benoit Poelvoorde), quarento sem teto que se intitula o punk mais velho da Europa. Quando o seu irmo (Albert Dupontel) perde o emprego e  abandonado pela mulher, Not corta o cabelo dele no estilo moicano e o ensina a sobreviver sem muito esforo. A dupla passa, ento, a viver de rolezinhos no shopping em que os pais tm uma loja de batatas fritas. No faltam situaes absurdas no filme da dupla Gustave de Kervern e Benoit Delepine. Eles ficam a dever  na inteligncia das gags. 


10#8 EM CARTAZ  MSICA - ABRAAO DE DESPEDIDA
por Ivan Claudio

Segundo DVD de Caetano Veloso pelo selo Multishow ao Vivo, Abraao registra a turn do mais recente trabalho do msico baiano que pe fim  sua parceria com a Banda C. A despedida lana tambm uma pergunta sobre os seus prximos lbuns. Aps sete anos juntos, a sonoridade do grupo mostra-se orgnica ao ponto de levar a aspereza roqueira de seus trs ltimos CDs a canes de fatura completamente diversa, incorporadas ao repertrio do show. Um bom exemplo  Triste Bahia, do disco Transa (1972), que faz uma boa ponte entre as recentes Um Comunista e Triste. A iluminao sem muitos tons e a reproduo de quatro telas do pintor suprematista russo Kasimir Malevich no cenrio assinado por Hlio Eichbauer do o acabamento final.


10#9 EM CARTAZ  AGENDA - CINEMA FRANCS/ANTONIO MANUEL/IRMOS DE SANGUE
Conhea os Destaques da semana
por Ivan Claudio

CINEMA FRANCS 
 (na internet, at 17/2)
 Dez longas e dez curtas franceses esto disponveis pela quarta vez no festival myfrenchfilmfestival.com
 
ANTONIO MANUEL
 (MAM, Rio de Janeiro, at 16/2) 
A exposio rene telas produzidas a partir de 1985 e obras recentes. Um dos destaques  a instalao Fantasma, feita de fragmentos de carvo suspensos em fios de nilon
 
IRMOS DE SANGUE
 (CCBB, Rio de Janeiro, at 23/2)
 O espetculo da Cia Dos  Deux, radicada na Europa, conta a histria de uma me e seus trs filhos. Foi bastante elogiado no Festival de Avignon

